Ontem a noite sonhei que dançava...
Alguns dias antes do AVC eu tive uma experiência diferente e especial: uma dança.
Vocês devem estar se peguntando o que há de diferente e especial numa dança?
Muitos gestos aparentemente simples e normais para alguns podem ser "especiais" para outros, e certamente eles sabem explicar...
A minha dança não foi em uma boate nem tão pouco numa casa de show. Foi sem ser planejada, sem ser "ensaiada", numa tarde de sol após uma manhã agradável.
O som estava ligado e de repente começamos a dançar. Inicialmente, nos mostramos tímidos, passos desencontrados, ríamos. Ahhh rir junto é delicioso!!!! Coisa boa!!
Mas, em seguida, sem percebermos estávamos dançando naturalmente como se já tivesse havido esse momento antes...em harmonia, juntos, com direito até de aprender que quando eu errar, devo dar uma paradinha e para continuar, dar um passinho para trás....aí a dança continua..rssss..um momento simples e mágico. Ahhh e teve as "rodadinhas" que adoro..rsss aprendi ( ou quase) a girar.. Acho lindo!
Quando me dei conta, estava experimentando uma sensação nova, plena, jamais experimentada numa dança. Era como se já tivesse vivido aquilo. Era confortável, me senti a vontade..Então comecei a descobrir que aquele momento me fazia muito feliz...realizada.. Nele encontrei a alegria, a paz, a integração, a sintonia, a sensualidade, a cumplicidade, a reciprocidade, a espontaneidade. Queria eternizar aquele momento, ahh como quis!!!!
Este momento foi tão significativo para mim que me ajudou a suportar os momentos mais difíceis na UTI e outros momentos de solidão. Se o leitor leu os meus primeiros posts lembrarão que mencionei " me agarrava na lembrança da dança". Era esta dança a que me referia. A dança que reuniu no seu momento tantos sentimentos bons, fortes, íntimos.Sentia como se minha alma estivesse revelando meus segredos....
Uma das primeiras falas minhas com meu neuro foi " Dr. eu quero dançar de novo" ( o médico deve me ter como uma pessoa boêmia rsssss !!)..Era aterrorizante a possibilidade de não poder mais sentir o que a dança me proporcionou, não poder viver mais aquilo.... Tudo estava muito vivo...presente...
Então eu percebi que queria comemorar minha recuperação dançando. Era exatamente assim que gostaria de recomeçar e de escrever a nova página da minha vida
Mas..não se dança sozinha...
Talvez eu sinta novamente a felicidade que senti. Espero que sim...
Resta-me seguir em frente e continuar vivendo...
Comento com a ajuda do amigo Carlos Drummond:
ResponderExcluir" A dança e a alma
A dança? Não é movimento
súbito gesto musical
É concentração,num momento,
da humana graça natural
No solo não,no éter pairamos,
nele amaríamos ficar.
A dança-não vento nos ramos
seiva, força, perene estar
um estar entre céu e chão,
novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão
libertar-se por todo lado...
Onde a alma possa descrever
suas mais divinas parábolas
sem fugir a forma do ser
por sobre o mistério das fábulas..."
Carlos Drummond de Andrade
Ahh Drumond, que traduz poeticamente a vida e nossos sentimentos quando refere-se à dança como" ...um estar entre céu e chão, novo domínio conquistado..".
ExcluirCerto! Duas individualidades juntas num passo de dança sem querer, criaram o " terceiro espaço", a interseção dos dois inteiros. Assim, caminho acreditando que " O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem..." (Fernando Sabino)