Esta semana fui surpreendida com fatos que me levaram a consciência de que não sou a mesma pessoa no sentido de funcionalidade física sobretudo, após o AVC.
Sou uma paciente que quando vista, ninguém percebe a "olho nu" sinal ou " sequela". Mas houveram danos cerebrais sim! Não posso fazer de conta que não houveram e achar que tive algo comum e que ao sair do hospital, voltei a viver tudo como antes.
Eu até cheguei a pensar assim, dada a minha excelente condição de saúde: trabalhando normal, raciocinando normal, dirigindo, fazendo atividade física, escrevendo, pensando no doutoramento e outras atividades que uma pessoa dinâmica faz.
Mas, em alguns momentos, percebo que há algo estranho dentro de mim. Nada demais aos olhos alheios. Mas dentro de mim TUDO.
Houve lesão cerebral no espaço da coordenação motora e da visão. Nada que me compromete o dia dia.
Em alguns momentos há pequenos desequilíbrios e sinto que em alguns momentos as pessoas pedem que eu repita o que falei. Comecei a prestar atenção nisso.
Ocorre que meu raciocínio é rápido, mas minha fala não consegue acompanhar esta velocidade.Até então estou no grupo do meu trabalho, e em conversas que esta "sequela" não compromete o diálogo nem os seus objetivos.
Mas, houve uma prova de fogo que me pegou de surpresa.
Fui convidada para dar uma palestra em um evento científico com limitação de tempo.
Subestimei a situação e desconsiderei a limitação de tempo.
Então preparei material, confiei na minha larga experiencia de presidir inúmeras colações de grau, de dar inúmeras aulas e outras palestras. Porém não contei com o acaso e a surpresa.
Ocorre que diante da limitação do tempo, havia necessidade de verbalização com mais rapidez. As idéias começaram a ficar confusa na minha cabeça, porque era como se elas viessem, com as relações que eu queria fazer, mas a fala não acompanhava, então houve " acúmulo" de idéias, confusão interna, e claro, comprometendo a verbalização. Para completar a situação, também senti dificuldade em VER os slides que preparei. Tudo isso junto e ao mesmo tempo comprometeu a apresentação.
Para mim, pessoalmente, foi um caos interior. Fiquei muito abalada, chorei muito depois, com a constatação de que não era a mesma pessoa com a fluência e a capacidade de apresentar idéias em público. Pensei em desistir de alguns projetos, fiquei muito abalada emocionalmente.
Encontrei acolhimento de pessoas que me amam, com plavaras doces. Eles estão certos! Depois de tudo que passei sou uma vitoriosa. Mas, para uma pessoa perfeccionista que era, o que ocorreu foi muito forte. Encontrei também amigos e colegas de trabalho que me fortaleceram com palavras " ali estava uma guerreira tentando viver e recomeçar".
Depois de passada a "dor", de ter tratado emocionalmente a situação, concluo que preciso reconhecer que não sou a mesma pessoa ( no sentido funcional cerebral). Que preciso rever os instrumentos de apresentação, a metodologia, aceitar as minhas limitações e continuar em frente.
Dói, dói muito para a pessoa que viveu um AVC estar " diferente" de antes. Mas, eis o aprendizado escolhido para nossa evolução e crescimento espiritual.
Por isso, recomeçarei agora a partir da consciência de que ser diferente é normal. Não deixarei a chama se apagar.
Para vocês leitores e familiares de pacientes pós AVC, o inteligente é descobrir NOVOS olhares, novos meios de continuarem fazendo o que gostam e o POSSÍVEL. Novos caminhos para continuarem VIVENDO. Orgulhem-se do que fazem! Orgulhem-se de quem são!!!! Peçam ajuda. Não conseguimos passar por tudo isso sozinho.